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16 julho 2009

Voltar à idade dos Porquês

Nada de ilusões, somos nós quem traça o nosso caminho.
Quando decidimos...ou quando decidimos não decidir.
Sentimo-nos amparados, seguros, acompanhados, quando alguém nos mostra o caminho. Sentimo-nos melhor ainda quando nos asseguram que aquele é sem sombra de dúvida o melhor caminho. Perfeito, perfeito, é nem ter de pensar duas vezes no caminho que nos mostram, e assim convencemo-nos que só existe um caminho. O caminho CERTO.

O meu conselho é questionarmo-nos. Pensar, e pensar bem, e tomarmos as rédeas das nossas vidas. Descobrir todos os pontos de vista possíveis de cada questão, e por fim optar, conscientemente, e assumindo a responsabilidade dessa opção.

Não existem verdades absolutas.
Podemos e devemos questionar o/a nosso/a parceiro/a, o nosso médico, os nossos familiares, os nossos colegas e amigos, a nossa Doula!
"Vamos fazer outra ecografia" Porquê? Para quê?
"Tem de tomar estes suplementos" Sim? Para que servem?
"Não pode comer isto, aquilo, não pode ter gatos, não pode ir à piscina..." A sério? Mas porquê?
"Quantas cesarianas? VBAC(Vaginal Birth After Cesarean)? Impossível." Tem a certeza? Li uns estudos que diziam...
"O plano de vacinação é este" Mas...nós tinhamos pensado...
"As fraldas de pano deixam o rabinho do bebé mais assado" Nunca imaginei...

A realidade dos outros, é dos outros, a nossa temos de ser nós a construir.

16 maio 2009

A melhor mãe do teu bebé és tu

Ser mãe não é nada fácil.
Ser pai também não deve ser, mas sobre isso já não posso falar na 1ª pessoa.
Repito, ser mãe não é nada fácil. Os bebés sempre me acharam piada, eu julgava que era por acharem piada aos meus cabelos, longos e despenteados. Quando pari percebi que não era bem isso, os bebés olham para mim e reconhecem as suas próprias mães no 1º instante em que as conheceram, de olhos brilhantes e o cabelo em desalinho :).
Fora de brincadeiras, estava no outro dia em conversa com uma jovem e recente mãe que me dizia que nunca niguém lhe tinha dito que os primeiros tempos a seguir ao parto eram assim. Que até já tinha acompanhado algumas mulheres e seus bebés e nunca tinha percebido o turbilhão do pós-parto.
O pós-parto é um periodo lindo, o culminar de uma gravidez que se espera tenha sido muito feliz, e o acolher de um bebé maravilhoso. Mas não é um periodo cor-de-rosa, a não ser alguns anos mais tarde quando olhamos para trás com saudade.
Parece blasfémia dizer isto, parece que somos mães terríveis por dizer isto, parece que não amamos os nossos filhos o suficiente, parece tanta coisa e todas elas pesam cada vez mais nas nossas consciências.
Ninguém diz que se sentiu triste sem saber bem porquê...
Ninguém diz que duvidou vezes sem conta se seria capaz de tomar conta daquela dádiva maravilhosa acabada de entrar na sua vida...
Ninguém diz que se sentia tão cansada que não conseguia tomar conta de si, quanto mais de um bebé.
Ninguém diz que muitas vezes lhe apeteceu fugir e ter 5 minutos para si, e só para si.
Ninguém diz que precisou de colo...e de mimos...e de atenção...e de amor...tanto como o seu filhote.
Só nos falam de como tudo foi maravilhoso, feliz e mágico e ainda dão umas dicas e opiniões com tais certezas que até parece que se convencem que podiam ser melhores mães dos nossos filhos que nós. Mas não duvidem nem por um segundo, os melhores pais para os vossos filhos são vocês.
A segurança com que vos falam é só aparente, quando passaram por isso estavam tão desnorteados como vós, tinham tantas dúvidas como qualquer um.
A responsabilidade de tomar conta deste novo ser é realmente uma grande mudança na vida, até agora só tínhamos de tomar decisões por nós, e arcar com as consequências dessas decisões. Agora este bebé depende de nós para tomarmos conta dele, e é difícil para nós a constante incerteza de tomarmos a decisão mais acertada para aquele pequeno ser. A insegurança instala-se e parece que nem o instinto de mãe nem o 6º sentido feminino nos vale.
Se me permitem dar uma dica;)... ter calma é o essencial. As vossas opções podem ser diferentes de quem vos rodeia, mas o vosso bebé também é único. Ouçam as vossas mães, tias e avós apenas Q.B. e aprendam o que de melhor tiverem para vos ensinar, de resto façam o que sentirem que é melhor para os vossos filhotes e confiem no vosso instinto. Confiem nos vossos filhotes, eles sabem sem sombra de dúvida o que é melhor para si mesmos. E tenham fé, quando sentirem uma pontinha de desespero, acreditem que é só uma fase, e as fases dos bebés duram apenas uns dias, sem darem por ela vão sentir-se cada vez mais confiantes e serenas.
Mãe há só uma, e és tu :).

06 maio 2009

O que é afinal Humanização?

Na Grande Reportagem "9 Meses Depois" apresentada pela SIC vimos e ouvimos uma senhora defender que não lhe agradava o termo humanização, simplesmente porque naquele serviço não ajudavam a nascer macacos mas humanos. Bastará a presença de seres humanos para considerarmos este serviço hospitalar um serviço humanizado? Esta senhora disse outra coisa curiosa, que só podia respeitar a mulher até certo ponto, e aqui deixei de ter qualquer dúvida que esta senhora primeiro não faz ideia do que significa o termo HUMANIZAÇÃO, e segundo é péssima no uso do português falado.

Quando se diz que só podemos respeitar a mulher até certo ponto percebemos imediatamente que esse serviço hospitalar está longe de ser humanizado. É sempre possível, e imperativo, que se respeite a mulher em trabalho de parto(e já agora todos os utentes dos nossos serviços hospitalares). E respeitá-la é tão simples quanto informá-la dos procedimentos que se estão a realizar, deixá-la ser acompanhada por quem ela desejar, apresentar-se e pedir permissão para se fazer um toque vaginal, resguardá-la de "mirones" como a senhora da limpeza e outros profissionais curiosos, etc., etc., e muitos etcs. mais. Ou seja, regras básicas da boa educação...

Mas Humanização do Parto é muito mais do que isso. Humanização do Parto é entender o papel de protagonista da Mulher. Entender que quem pare é a Mulher e não a equipa hospitalar. Que Ela é responsável pelo seu corpo, pelas suas opções, e sabe sem sombra de dúvidas o que é melhor para si e para o seu bebé nesse momento, em vez de a tratar como uma tontinha idiota e inconsequente. Perceber que todos os aparelhos, maquinetas, tecnologias não serão nunca tão perfeitos quanto o corpo feminino para parir uma criança.





“When I use a word”, Humpty Dumpty said, in rather a scornful tone, “it means just what I choose it to mean- neither more nor less” (CARROLL, 1960: 188)

Para o dicionário, humanização é o ato de humanizar, que por sua vez significa:

1. Tornar humano; dar condição humana a; humanar.

2. Tornar benévolo, afável, tratável; humanar.

3. Fazer adquirir hábitos sociais polidos; civilizar.

4. Bras., CE. Amansar (animais).

5. Tornar-se humano; humanar-se.


Esta primeira consulta semântica leva-nos à pergunta: o quê é o humano? Será que podemos neste começo de século assumir que é humano o que é afável, benévolo, como diz o Aurélio? Ou o que é manso? Ou que ainda precisaríamos civilizar-nos? (...)

Quem pretende explicar a existência de hospitais como uma organização destinada a tratar do corpo biológico se equivoca, cometendo uma redução. Ainda que nos hospitais prime uma ênfase nos processo curativos que operam sobre o corpo (biológico), eles mantêm sua condição de produto social, e de espaço de trocas inter-subjetivas. Trocas que acontecem sobre os corpos, nos corpos e além dos corpos biológicos. O sujeito está numa mesa cirúrgica, anestesiado: ele está nesse momento reduzido ao grau máximo de coisificação, de corpo biológico puro. Contudo não foi assim dez minutos antes, nem o será dez minutos depois da operação. Nem estão reduzidos ao nível de máquinas os outros humanos que ali estão trabalhando. Alguém já se imaginou sendo operado por um cirurgião que na noite anterior teve uma terrível briga com a amante? Neste momento deve haver 500 cirurgias acontecendo nessas circunstâncias... A enfermeira diluindo potássio enquanto pensa no filho doente... Essas coisas acontecem o tempo todo! (...)

Mas será que o homem pode projetar-se a si mesmo como seu próprio eidos (ideal), já que é evidente que o homem não dispõe de si mesmo como o artesão dispõe da matéria com a qual trabalha? O conceito de phronesis (prudencia) é então analisado, sendo distinguido do de tekne. Uma tekne se aprende e pode se esquecer, mas na aplicação (das leis por exemplo) Aristóteles não fala de tekne e sim de phronesis.(...)

Dada uma tekne(técnica), é preciso aprendê-la e com isso saber-se-á escolher os meios idôneos, o saber ético requer, sempre, buscar conselho consigo próprio. Portanto, para esse autor(Gadamer, 1997), é falso que com a expansão do saber técnico poder-se-ia prescindir do saber ético.(...)"
Ler também "Humanização do Parto: Qual o Verdadeiro Significado?" por Ricardo Herbert Jones

29 abril 2009

Exames

Todos os exames de saúde têm pelo menos um efeito negativo, a ansiedade da espera.

Como se aprende a Parir?

(Isto a propósito deste post. Eu ia só fazer copy/paste, mas não resisto a deixar também umas palavrinhas.)

Simples. NÃO se aprende!! Parir é completamente inato, como o bater do coração ou respirar.

Então quando me apresento como Educadora Perinatal, afinal... pois, é tudo publicidade enganosa, eu não ENSINO ninguém a gerar uma criança, ou a parir, eu acompanho as várias fases pelas quais a mulher está a passar, informo sobre variados temas que dizem respeito à gravidez, parto e pós-parto e essencialmente tiro dúvidas(mas convenhamos...Tiradora de Dúvidas Perinatal não é um nome muito prático...).


Por todo o país se faz Preparação para o Parto. Aqui em Vila Real as grávidas a ser acompanhadas no Centro de Saúde são contactadas às 28 semanas para fazerem as aulas de Preparação para o Parto. E em que consistem essas aulas?Método Psicoprofilático.

"O método baseia-se na aprendizagem de reflexos condicionados que vão favorecer a evolução do trabalho de parto, como o relaxamento e a respiração adequada a cada momento."

Para mim há duas coisas boas neste tipo de preparação que se faz em Portugal, em 1º lugar o facto de as mulheres reservarem umas horas por semana para se dedicarem à sua gravidez, a 2ª e mais importante o tempo em que estão à porta da aula e conversam umas com as outras e descobrem as mesmas preocupações e dúvidas na mulher sentada ao seu lado.

Para os contras deixo aqui o Sr.Michel Odent:

"Assim, Lamaze, obstetra francês, pai da psicoprofilaxia ocidental, dizia e escrevia que uma mulher deve aprender a dar à luz tal como aprende a andar, a ler ou a nadar. Estas indicações despistaram o mundo inteiro, e com o tempo, resultaram numa crise. (…) Foi assim que gerações de mulheres gestantes foram preparadas para o parto.A interpretação do processo de parto como um processo involuntário que põe em marcha as estruturas ancestrais, primitivas, mamalianas do cérebro, pressupõe desfazer a ideia aceite de que uma mulher pode aprender a parir.Esta interpretação permite, inclusive, compreender que não se pode ajudar activamente uma mulher a parir. Não se pode ajudar num processo involuntário. Somente se pode evitar perturbá-lo demasiado.


Michel Odent

in "El bebé es un mamífero" 1990

Ou seja, não consigo aceitar que seja necessário condicionar uma mulher para esta parir melhor. Entendo que à partida ela já está condicionada negativamente com tudo o que vê nas séries e filmes, e pelas histórias terríveis que as outras mulheres contam dos seus próprios partos. Para parir a mulher precisa antes de mais de descobrir o seu poder feminino, a sua condição de deusa magnífica, a sua força avassaladora. O corpo da mulher é sábio, senti-lo, ouvi-lo e entendê-lo é o melhor caminho para o melhor dos partos.
NOTA-As ultimas indicações do Lamaze, no seu último guia The Official Lamaze Guide, fala-se mesmo de repensar a respiração e relaxamento. Neste guia, a mulher é convidada a encontrar a sua própria respiração consciente, e a procurar outras formas de se manter activa para lidar com as contracções: andar, dançar, massagens, bolas de parto, baloiçar, etc.

28 abril 2009

Parto não é “mãezimetro”

"Ninguém é menos mãe porque fez cesárea”, ou não amamentou, ou adotou um bebê, ou só tem um olho.
Parto não é “mãezimetro”."

Socorro Moreira em www.partodoprincipio.com.br
Vamos então respeitar as escolhas de todos e cada um... sem qualquer reserva.
Ser Doula é amar incondicionalmente, e estar lá, mesmo que o caminho seja difícil.